Por Guilherme Jorge da Silva

Pedro Almodóvar é figura carimbada nas grandes premiações cinematográficas. Vencedor de duas estatuetas douradas – uma por melhor roteiro original em hable con ella (2002) e outra de melhor filme estrangeiro por tudo sobre minha mãe (2000) – o cineasta coleciona premiações e reconhecimento mundo afora. 

Com uma carreira trabalhada desde os meados dos anos 1980, o espanhol colocou sua marca no mundo da cinefilia – seja pelas cores quentes, seja pelas mulheres marcantes ou seja pela estética belamente brega (o que algumas pessoas portadoras de monóculos e nariz adunco nomeiam de kitsch – essas pessoas podem ser facilmente o tio pernóstico do pavê ou a tia perua do primo formado em medicina). Tudo sobre minha mãe encarna as melhores características de Almodóvar maduro e pleno de suas capacidades artísticas.

Manuela (Cecilia Roth), mãe de Stebán (Eloy Azorín), perde seu filho no dia de aniversário de 17 anos em um acidente após a peça um bonde chamado desejo, estrelada pela diva Huma Hojo (Marisa Paredes). Perdida em profunda tristeza, regressa para Barcelona reencontrando a amiga travesti Agrado (Antonia San Juan) e conhecendo a freira Rose (Penélope Cruz). Sua volta para cidade é motivada por amarguras não resolvidas com o desconhecido pai de Stebán, interpretado por Toni Cantó.

 Manuela mergulha em um complexo mundo de prostituição, abuso de drogas e sexualidade. Em ambiente tão diverso, capricha-se nas referências cinematográficas – sobretudo envolvendo a figura mítica de Bette Davis e seu A Malvada (1950) – e na utilização do vermelho (seja na peruca, no vestido, na parede ou no esmalte da unha). Cor forte e marcante, simboliza não apenas o sanguíneo, mas também o turbilhão de emoções e o coração, ponto tão marcante para uma mãe.

Nada é gratuito, exagerado ou fora do ponto. O desenvolvimento psicológico é natural, o mais natural possível, e envolve todos os dilemas de uma mãe que acaba de perder um filho. Essa naturalidade torna o filme leve, mesmo que dramático e com assuntos tão sensíveis. O virtuosismo do roteiro é tão grande que o timing humorístico é invejável. E na fração cômica, respiração e ação são executadas com perfeição pelo elenco de primeira grandeza.

Antes de subir o letreiro, anuncia-se: “A Bette Davis, Gena Rowlands, Romy Schneider, a todas as atrizes que interpretaram atrizes, a todas as mulheres que atuam, aos homens que atuam e se tornam mulheres, a todas as pessoas que querem ser mães. À minha mãe.” A homenagem vai além da figura feminina e da mãe como símbolo de tudo aquilo, que nós filhos, conhecemos. É uma ode à persona (no sentido grego, de personagem que se encarna), ao direito de tudo e de todos sermos o que quisermos e fazermos o que quisermos. Tem seus efeitos colaterais, sua bagagem de emoções disruptivas, as vicinais da vida e ônus, muitos ônus. Mas é a marcação do direito Humano de escrever a sua vida com a sua folha e caneta, fazendo assim, uma ponte, com a figura materna que guarda as chaves da vida.

Tudo sobre minha mãe está disponível na Amazon Prime.

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