Por Guilherme Jorge da Silva

Alguém já se perguntou como seria o mundo caso Adolf Hitler vencesse a II Grande Guerra Mundial? Parece distante, mas o desfecho final daquele que seria o pior embate bélico da história da humanidade está apenas há 75 anos – e determinou, de forma fundamental, toda a civilização humana até os dias de hoje.

Para entender o mundo que se passa na distopia criada por Philip K. Dick (1928-1982) é necessário um esforço intelectual. O mundo como concebemos não existe mais, e a cartilha nazi do Mein Kempf reina absoluta na moralidade dos habitantes da costa oeste dos Estados Unidos (Grande Reich Nazista), com sede em Nova York. Apesar de não seguir cartilha semelhante, o Império japonês domina com a mesma brutalidade os Estados Japoneses do Pacífico, com sede em São Francisco. Ao centro dos EUA temos uma faixa neutra, predominando igualmente a barbárie. O resto do mundo também se divide entre arianos e nipônicos.

Não é preciso uma cartilha para se vislumbrar os preceitos que ditam essa sociedade. Mas é altamente chocante e incômodo quando nos deparamos com a bandeira norte-americana com o símbolo nazista no lugar das suas 50 estrelas. Também é provocante a imposição cultural, tanto do lado de Berlim quanto do lado de Tóquio. Apesar de vencedores, ambos os impérios vivem em uma espécie da guerra-fria, com um Japão muito menos tecnológico e articulado quando comparado com os germânicos – que não deixa de ser uma deliciosa ironia dentre tantas outras que permeia a série.

Somos levados por sucessivos socos no estômago em um universo autoritário, preconceituoso e onde a liberdade – seja da coletividade ou do indivíduo – inexiste. As cartas são jogadas e pintadas pelos poderosos, e mesmo eles estão a mercê de uma cultura ariana de purificação e eugenia. Ninguém está protegido ou pode se dar ao luxo de esboçar um sorriso ou um relaxamento, simplesmente porque a não existe motivos para a esperança ou grandes expectativas. Tudo isso é demonstrado em uma fotografia carregada e em uma narrativa veloz e muito bem amarrada.

É nessa brutalidade que O Homem do Castelo Alto (Stephen Root) é introduzido, com filmes de universos paralelos onde a derrota dos japoneses e dos nazistas é real, e onde o mundo tem sol, luz, sorrisos e leveza. Entretanto, é necessário espalhar os filmes e a visão de que a realidade pode ser diferente, pode ser mudada e modifica pela população que vive sob a violência de seus governantes. A chamada Resistência tem como missão recuperar os EUA e torná-lo uma sociedade liberta.

Mas a máquina do sistema é muito bem azeitada e estruturada, demonstrando uma força avassaladora e uma sensação de impotência para cada microcosmo de cada personagem. Aliás, apesar de uma narrativa ágil, todas as personagens são muito bem exploradas e apresentadas. Quando percebemos, estamos compreendendo as motivações de um nazista de alta patente ou de um japonês – o que não os redime, de forma alguma, de suas ações nefastas.

E é esse pé no chão que enriquece o universo criado por Frank Spotnitz (arquivo x) e produzido por Ridley Scott (Alien).  Bem roteirizada, dirigida e atuada, tropeça em alguns desfechos e explicações e perde fôlego e foco na última temporada. Mas o mundo apresentado é tão complexo e diversificado que os deslizes são desculpáveis, não comprometendo a melhor produção da Amazon – e, com toda certeza, uma das melhores nos últimos dez anos.

O Homem do Castelo Alto tem todas as temporadas disponíveis na Amazon prime.

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