Crônica escrita por Rian Fernandes. Não representa a opinião do portal Araraquara Agora

Já imaginou se as ‘tragédias’ do futebol fossem contadas de uma maneira positiva? Seriam diferentes e relevantes mudanças nas narrativas de cada acontecimento, retirando a evidência dos fatos ruins que devem ser destaque. O mesmo ocorre com os recuperados da Covid-19, já que sem a doença, os curados continuariam, da mesma maneira, com vida, diferentemente dos que se foram por conta do vírus.

Os apaixonados pelo futebol brasileiro, em especial, pela Amarelinha, certamente se lembram do apavorante 7×1 sofrido contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014. Após a partida, a repercussão não foi apenas no Brasil, mas sim em âmbito mundial, salientando o mal futebol apresentado pela equipe em campo. No entanto, pela perspectiva em que se encontram as críticas contra narrativas abordadas em relação ao coronavírus atualmente, o Brasil daquela partida seria elogiado.

O jogo contra os alemães seria debatido, não somente entre a mídia, mas também entre o próprio povo brasileiro, pelo “importante” gol feito no confronto, no caso, o único contra os sete sofridos. Sim, não teriam choros dos torcedores nas arquibancadas do Mineirão, estádio que também ficou marcado por ter sido o palco do fiasco. Quer dizer, no caso da análise, o palco da felicidade.

A ‘tragédia nacional’, dentro do futebol brasileiro, não teria as imagens de David Luiz, com lágrimas no rosto após a partida, lamentando a triste derrota. Na verdade, as cenas mostradas ficariam em torno daquelas de antes do jogo, em que atletas, junto da torcida, tinham esperança na vitória, que levaria a Seleção para a final da competição. Ou o gol, por exemplo, seria motivo de comemoração.

Mais impactante ainda, foi o triste desastre envolvendo a Chapecoense, com a queda de um avião. Porém, se fosse transformar todo o acontecimento em algo bom e positivo, os sobreviventes seriam destaque e aqueles que se foram, que deram a vida pelo futebol, não seriam nem ao menos, citados. O velório, merecido em homenagem às vítimas que sonharam com a final que seria disputada, não teria ocorrido. O evento, que foi triste e chocante, seria para celebrar, mesmo em um período de luto.

Todos os fatos mencionados possuem uma relação narrativa com a atual pandemia do coronavírus, mesmo que em diferentes áreas, sendo o esporte e a saúde. Diante da propagação de um vírus que mata pessoas, a repercussão não pode ser por aqueles que se recuperaram, pois eles são considerados “curados”, justamente, pela existência de uma doença que mata pessoas. Quem venceu a Covid-19, continua e continuaria vivo sem a contaminação. No entanto, aqueles que morreram, se foram sem se despedir.

Assim como o desastre é destaque no esporte, ela também é na área da saúde. Uma festa não pode acontecer para comemorar um fato enquanto o pior acontece, como no 7×1 que continuará marcado pelo fracasso ou como na tragédia da Chapecoense.

Perante a pandemia, curados existem e viverão o dia seguinte, no entanto, as mortes, viram números e as pessoas passam a frequentar apenas as memórias. Uma tragédia com falecimentos que representam pai e mãe, filho e filha, enfim, sentimentos em luto.

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