Por Guilherme Jorge da Silva

O cuco, ao engravidar, procura um ninho onde os ovos se assemelhem aos seus. A mãe cuco, então, substitui o ovo original pelo seu. O filhote, ao nascer, seguindo um curioso extinto de sobrevivência, empurra os pequenos originais para a morte, tomando-lhes o lugar de direito.

Com premissa muito semelhante, Lorcan Finnegan monta um terror psicológico com ares de ficção científica e mistério. Partindo do minimalismo, o que poderia acontecer de tão extraordinário na vida de um casal ao procurar uma casa para constituir a sua família? O que parece simples revela-se complexo e imbuído de diversas camadas – tanto de crítica social quanto de horror bem engendrado.

Nos deparamos com uma história muito estranha e esquisita, em um condomínio que promete ser o lar perfeito e definitivo com casas verdes arrumadas, limpas e perfeitamente geométricas. O sol, as nuvens e até o asfalto parecem sair de um desenho, o que gera incômodo e desconforto desde o princípio – mais pela identificação do que pelo irreal.

Temos a camada mais simples do filme – aquela que critica o estilo de vida moderno, o sonho de se constituir uma família perfeita com casa e rotina regrada. A mulher ocupa o espaço da dona de casa que zela pela educação do filho, enquanto o pai se distancia cada vez mais do lar. A repetição de atividades cotidianas joga o casal para um mortal, tortuoso e solitário cotidiano. O enquadramento absolutamente mínimo e limpo nos remete ao que todos querem da vida, linearidade absoluta. Não podemos negar que, na sociedade em que vivemos, o diferente, o ousado e o multifacetado sempre vem acompanhado de preconceito, medo e ódio ao adverso.

A segunda camada é mais complicada: como quebrar tudo isso e como sair da prisão de um condomínio perfeito? As duas personagens, então, se encontram em um conto Kafkiano onde não tem vizinhos e não conseguem retornar ao mundo real como conheciam – aquele mundo onde as nuvens tinhas diversos formatos, o sol não era tão amarelo e havia a existência de vizinhos.

Explora-se todas as possibilidades: caminhar por todo condomínio, atear fogo na residência, escrever um “Help” no telhado ou até mesmo cavar um imenso e definitivo buraco. Entretanto, o horizonte permanece o mesmo, indefectivelmente apinhado de nuvens perfeitas e casas verdes vazias. Em algum momento, um bebê chega em uma caixa corporativa com a seguinte promessa: crie-o e voltarão para o mundo normal.

Ecos da série “The twilight zone” não é mero acaso. A direção não está aqui para responder e sim para confundir. E quanto mais confusos, mais curiosos com esse mundo absurdo. A criança tem comportamentos estranhos e impertinentes, cresce em velocidade anormal e os dias se sucedem tortuosamente. Não há escapatória.

Nessa prisão, um belo dia, o menino liga a televisão. Imagens bizarras . Num outro dia, aparece com um livro na mão. O que seria uma janela de escape acaba sendo mais uma peça de um quebra-cabeça confuso, uma vez que as informações contidas no livro estão em uma linguagem desconhecida, aparentemente ancestral. Mas, afinal, onde o menino encontrou aquele livro?

Depois de ¾ de filme é surpreendente que aquelas personagens não cometam suicídio ou não se entreguem aos braços dionisíacos da loucura. Lovecraftianamente o menino se revela de uma espécie diferente – de um outro mundo, talvez? Começamos a perceber que aquele menino, tal qual o cuco, está sendo criado por outra espécie. Universos paralelos desacortinam-se, onde essa bizarra espécie se perpetua operando de forma sistemática.

Se você chegou até aqui curioso, o objetivo do texto foi alcançado com louvor. Mas não espere um filme fácil ou conveniente. Deixe-se levar pela criatividade e pelo mar imaginativo proposto – despertando o medo pelo desconhecido que atormenta a humanidade que não espera um estranho no ninho.

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