Por Rian Fernandes

Após a polêmica envolvendo a representação jurídica feita pela Prefeitura de Matão, contra Araraquara, o presidente do Sincomércio, Antonio Deliza, disparou que, ao contrário da Morada do Sol, a Terra da Saudade não fez o dever de casa. Em pleno Dia do Comerciante, comemorado nesta quinta-feira (16), o Araraquara Agora falou com o representante do setor, que lamentou a decisão tomada por parte dos matonenses.

“A diferença entre Araraquara e os nossos queridos amigos de Matão, foi que eles não fizeram o dever de casa. Eles não fizeram o que Araraquara fez, de dar o valor necessário para a equipe que toma conta da pandemia, que soube trabalhar tecnicamente e fazer o dever de casa”, comentou Deliza.

Também de acordo com ele, Araraquara preparou uma infraestrutura para receber os contaminados, diferentemente de Matão. “Então agora vem querer parar. É uma situação muito difícil e que eu acho que não tem sentido, mesmo fazendo parte da mesma região”, salientou.

Para destacar que as situações do enfrentamento ao coronavírus são distintas nos municípios, o presidente do Sincomércio voltou a comparar as infraestruturas das cidades e também lamentou a decisão tomada pela Prefeitura de Matão. “Eu tenho certeza absoluta que a gente deve estar recebendo doentes daqui de Matão, porque eles não tem a infraestrutura necessária. São circunstâncias diferentes, Araraquara está na frente. (…) Com relação a Matão, é uma pena. A gente fica muito chateado, temos amigos lá, mas a cidade não fez o dever de casa”, destacou.

Além disso, para Antônio Deliza, já existe uma expectativa para Araraquara avançar na fase da flexibilização da quarentena. “Estamos sendo case de baixíssima mortalidade, uma referência para todo o Brasil. Eu acho que já está na hora da gente começar a flexibilizar para a fase amarela. Acho que já estamos preparados para isso”, ressaltou.

Entenda a polêmica

A Prefeitura de Matão questionou juridicamente o fato de Araraquara ter relaxado, por conta própria, suas regras de flexibilização da quarentena. O judiciário, por meio de decisão liminar, no último dia 29 de junho, acatou os questionamentos da cidade vizinha e o município de Araraquara será obrigado a rever seu decreto e determinar o fechamento de academias, barbearias e salões de beleza, além de impedir que bares, restaurantes, lanchonetes e assemelhados possam fazer atendimentos presenciais, por exemplo.

A Prefeitura de Araraquara lamentou a decisão da cidade vizinha. “Acreditamos ter sido essa iniciativa da Prefeitura de Matão um ato impulsivo e pouco reflexivo, isolado, diante do sentimento da maioria da população. Temos ainda a certeza que essa ação desagregadora e pouco fraterna não reflete o pensamento do povo irmão da Terra da Saudade”, diz trecho da nota.

O que alega a Prefeitura de Matão

Durante uma transmissão ao vivo feita pela Prefeitura de Matão nas redes sociais para esclarecer o caso, o prefeito Edinardo Esquetini (PSB) ressaltou que tem sido questionado sobre protocolos adotados em Araraquara que permitem o funcionamento de alguns setores comerciais, enquanto em Matão não se pode flexibilizar. Além disso, segundo ele, uma contaminação na Morada do Sol também afeta a Terra da Saudadee. 

“Se Matão tem que cumprir esses protocolos para preservar vidas, nós temos também que preservar vidas das pessoas de Araraquara. Nós somos cidades vizinhas, temos muitas pessoas de Matão que trabalham em Araraquara, muitas pessoas de Araraquara que trabalham em Matão. Então, uma grave contaminação lá contamina Matão e vice versa. (…) Nós temos que exigir direitos igualitários. Como que pode, dois municípios da mesma Diretoria Regional de Saúde, um pode o outro não pode”, argumentou. 

Nota da Prefeitura de Araraquara

A Prefeitura de Araraquara informa que suas medidas graduais de flexibilização da economia, amplamente dialogadas com o Comitê de Contingência do Coronavírus, com setores econômicos (patronais e trabalhadores) e com Ministério Público, são correspondentes e vão ao encontro de suas ações responsáveis na área da saúde, bem como a toda estrutura organizada na cidade, as quais hoje oferecem segurança e retaguarda no enfrentamento ao coronavírus, inclusive não só à população de Araraquara, mas também de toda a região. O Polo de Atendimento (Central de Triagem na Vila Xavier) e o Hospital da Solidariedade (Hospital de Campanha), por exemplo, têm sido colocados à disposição de toda a região e várias cidades têm encaminhado pacientes para o atendimento nessas unidades.

Não à toa, Araraquara é citada como referência no combate à Covid-19 por diversas mídias nacionais e, inclusive, pelo próprio Governo do Estado que, no dia de ontem, 14 de julho, em sua coletiva à imprensa, enalteceu a cidade como a 1ª do estado de São Paulo com menor taxa de letalidade pelo vírus – a cidade tem uma taxa de 1,17% em cada 100 mil habitantes, seguida de Taubaté 1,8% e Bauru 2,6%, enquanto o estado de São Paulo tem 4,8%.

Hoje, a cidade vivencia essa situação diferenciada graças ao trabalho realizado desde a primeira quinzena de março, quando ainda não se tinha nenhum caso positivado, tais como: a criação precoce do Comitê de Contingência da doença; a criação do Disque-Saúde, o nosso 0800, para que a população tivesse acesso à triagem por tele-atendimento, com médicos da rede básica e estudantes e professores do Curso de Medicina da Uniara.

Também em março, antes mesmo do primeiro caso ser registrado, já contávamos com equipe de bloqueio e isolamento de casos suspeitos. Hoje, o bloqueio e o monitoramento são realizados em todos os suspeitos e positivados, bem como familiares e comunicantes.

Expandimos os horários de atendimento até às 20 horas em seis das nossas unidades de saúde, em regiões estratégicas, a fim de contribuir para o não colapso do atendimento nas UPAS, bem como proteger a população e oferecer horários alternativos de consulta.

Estruturamos, como dito acima, a nossa UPA, junto com a Igreja Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, criando ali um verdadeiro complexo de acolhimento, atendimento e centro de triagem de pacientes sintomáticos do coronavírus. O complexo conta com 9 leitos de UTIs e 19 de enfermaria.

Numa parceria com a Unesp Araraquara, conseguimos dar vazão a um dos principais problemas que nos deparamos no início da pandemia: a demora do resultado da testagem. Conseguimos ampliar e dar agilidade nos exames e isso favoreceu as medidas de prevenção que a cidade poderia tomar. E não parou aí. A parceria com a Uniara para o chamado inquérito sorológico (saber por onde o vírus já circulou) também garantiu a cidade o posto de uma das que mais testam no Brasil. Nossa política de testagem está acima da média estadual, nacional e inclusive de países referência no enfrentamento ao coronavírus como a Coreia do Sul. Matéria do Estadão publicada em 26 de junho deste ano trata sobre isso. Araraquara tem hoje a marca de 5.053 testes para cada 100.000 habitantes.

A criação do Hospital da Solidariedade, construído em cinco semanas, que é o único hospital de campanha de toda a região, um dos poucos do interior de São Paulo, nos deu uma expansão de leitos, o que nos dá segurança e garantias para a nossa população que venha a ser contaminada. Somente lá temos 20 leitos de UTI e 31 de enfermaria. O Hospital possibilitou que a cidade adotasse recentemente o protocolo da internação preventiva para pacientes positivados com mais de 45 anos ou com qualquer idade, porém com comorbidades. Vale ressaltar que das 48 internações desta quarta-feira, 18 eram de pacientes vindos de fora, de outras cidades.

Para além da saúde, criamos uma rede de assistência à população em alta situação de vulnerabilidade, por meio de um 0800. Com a Rede (que recebe inúmeras doações) e com a secretaria da Educação, conseguimos assistir com alimento de qualidade mais de 17 mil famílias. Além disso, garantimos atendimento psicológico por telefone a toda a população. No caso dos servidores que estão na linha de frente, além da testagem, propiciamos canais de atendimento psicológicos direcionados, bem como a possibilidade de hospedagem em hotel, a fim de proteger seus familiares.

Todas essas iniciativas, dentre outras não citadas aqui, dão condições para que Araraquara possa, com responsabilidade e segurança, cumprir o decreto do Governo do Estado e propiciar a flexibilização e a retomada gradual das atividades econômicas. Portanto, Araraquara tem estrutura e tem condições de cuidar da vida da nossa população porque fez a lição de casa.

Vale dizer ainda que todas as medidas foram feitas da forma mais democrática e transparente possível. Toda vez que existe alguma mudança de orientação por parte do Governo do Estado, nós não fazemos absolutamente nada de cima para baixo, não fazemos nada sem estarmos dialogando com a população, com as entidades representativas do empresariado, as entidades representativas dos trabalhadores e, também, com o Ministério Público, que é quem tem a responsabilidade de fazer a defesa dos direitos difusos da sociedade.

Assim, a Prefeitura de Araraquara age com diálogo, com muita democracia, respeitando as entidades representativas da nossa cidade e, principalmente, age com seriedade, garantindo a segurança da saúde da população neste que é um dos momentos mais difíceis já vividos pela região, pelo estado, pelo Brasil e pelo mundo.

Por fim, vale ressaltar que acreditamos ter sido essa iniciativa da Prefeitura de Matão um ato impulsivo e pouco reflexivo, isolado, diante do sentimento da maioria da população. Temos ainda a certeza que essa ação desagregadora e pouco fraterna não reflete o pensamento do povo irmão da Terra da Saudade. Da nossa parte, reafirmamos a nossa disposição de continuarmos agregando forças para derrotarmos o coronavírus na nossa região. Acreditamos que quando se trata de saúde pública tem que se fugir de toda politização. O que deve nos unir é um único objetivo: salvar vidas. Desta forma, queremos afirmar que as estruturas montadas pela Prefeitura de Araraquara continua a disposição do poder público de Matão, caso a população matonense assim necessitar.

 

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