Por Guilherme Jorge da Silva

Quando tratamos personagens eloquentes, como mulher maravilha e capitã Marvel, a responsabilidade em se entregar um produto moderno e emancipador é grande. Afinal de contas, temos dois ícones do ideal do super-herói – no caso, super-heroína – onde o espaço para uma visão patriarcal não tem vez. Mesmo leves escorregadas não são perdoadas.

Aves de rapina, nesse sentido, começa com um peso menor nas costas – mesmo tendo no título a palavras emancipação. Depois do fiasco de Esquadrão suicida (2016), esperava-se pouco de um filme que seguiria a mesma linha – só que, dessa vez, sob o ponto de vista da personagem mais querida do esquadrão: Harley Quinn (Margot Robbie).

Qualquer personagem que envolva o Coringa já é interessante por si só, mas desde 2016 a Arlequina ganhou potência para ser protagonista de seu próprio filme, com a figura do velho Joker em segundo plano. Ao evitar o lugar comum e tratar de questões menores ao invés de salvar o universo, a diretora Cathy Yan acerta ao lidar com o olhar feminino sem fragilidade e com muita humanidade. As personagens tem uma série de qualidades e falhas, e o principal fator que torna o filme relevante em si é a ausência da megalomania que estamos tão acostumados em ver nos filmes de herói. A Arlequina só quer esquecer o cretino do seu ex e comer seu x-egg.

Entretanto, o mundo vê a Arlequina como um apêndice do Coringa. Sua influência, sadismo e poder advém do tradicional vilão, e não dela mesma. O roteiro trata de colocar a personagem sob seu holofote de direito – a Arlequina é louca, insana e poderosa por si só, e bem mais legal do que as falhas tentativas de Coringa pré Phoenix.

Se Diana é intocável como amazona, com poderes divinos e moral bem estabelecida, todas as personagens femininas do filme tem seus dilemas: seja a Arlequina em busca de se estabelecer na Gotham dominada pelo mafioso mimado e aristocrata Máscara negra (brilhantemente interpretado por Ewan Mcgregor); seja a vingança familiar buscada pela caçadora (Mary Elizabeth Winstead); ou até mesmo a caricatura policial de Renee Montoya (Rosie Perez), sempre subestimada e deixada para trás por seus companheiros policiais. Se para mulher maravilha o laço e escudo são essenciais, aqui o prendedor de cabelo se torna uma âncora realística de lutas femininas – aliás, todas muito bem coreografadas e pontuadas ao longo do filme.

A ausência de grandes poderes também ajuda muito na condução do filme. Somos orientados por mulheres realmente fortes, mas que não deixam esconder suas falhas e seus erros. Nessa ausência reside a primeira emancipação do filme: é possível fazer um filme feminino, divertido e pé no chão sem fatores ex-machina.

A segunda emancipação é a reafirmação da independência feminina. Todas as personagens se mostram capazes de lidar com seus problemas e tratar determinados assuntos muito melhor do que a fracassada confraria verificada em esquadrão. O tom fantabuloso é expresso nas cores do figurino, nos flashbacks narrativos e na tonalidade certa em não se levar a sério. Se, em algum momento, o filme adotasse um tom mais realista, correria o risco da panfletagem barata – o que, em definitivo, não ocorre.

Portanto, se o filme é bom, porque raios flopou? A primeira explicação pode vir do filme concorrente, e também muito bom, Sonic. A Paramount não esperava a boa recepção, em grande parte pela rival do mesmo período. Mas se a Paramount não esperava o grande sucesso do ouriço, a Warner também foi pega de surpresa na rejeição do filme da Arlequina – que merecia bem mais do que os 200 milhões de dólares em receita mundial.

E aqui vamos para um triste fato do mundo nerd: o machismo estrutural. Fica claro que Aves de rapina não alcançou um sucesso maior por rejeição de um público de mais de trinta anos que ainda mora com os pais e se considera a vanguarda criativa. Fica cada vez mais claro, como água, que o século que vivemos e o mundo em que vivemos não tem mais espaço para esse tipo patético de fã. 

Aves de Rapina está disponível na Claro Now.

Leave a Reply