Por Guilherme Henrique Moro

O Araraquara Rock é o maior festival público de rock gratuito no Brasil. Um grande presente para a população araraquarense. No ano passado, o evento reuniu um público de aproximadamente 20 mil pessoas em quatro dias de puro rock and roll. Os shows aconteceram no mês de Julho, no Teatro de Arena, SESC e Praça Scalamandré Sobrinho.

Araraquara Rock 2020

Em 2020, festivais, eventos e shows do mundo inteiro não aconteceram em decorrência da pandemia causada pelo novo coronavírus. Com o festival araraquarense, não foi diferente.
Flávio Plex, atual curador do evento, organiza excursões para shows de rock há mais de 20 anos e conhece muitas pessoas no meio musical. Ele conta que as expectativas para a edição deste ano eram ainda maiores: “Em 2020, nós tínhamos um orçamento já aprovado maior que em 2019. Fazíamos contato com bandas de renome com ainda mais prestigio que as da edição passada. Essa pandemia nos jogou um balde de água fria”, lamenta.

Durante o período de isolamento, as lives são uma opção de lazer e entretenimento para o público em geral. Grandes festivais do Brasil tiveram suas edições online em 2020. Realizar o Araraquara Rock em formato de live neste ano não está descartado, mas é uma incógnita: “Eu tive conversas para fazer um dia com bandas de Araraquara e no outro com bandas de renome. Tenho meu projeto pronto, com um formato bem diferente, no entanto não é possível afirmar nada”, destaca Plex.

Antes do início da pandemia, o receio de uma possível paralisação de eventos já pairava entre Flávio e os demais organizadores do evento. Isso impediu que alguns contratos fossem assinados: “Já havia bandas convidadas e conversadas, mas nenhum contrato foi assinado. As seletivas estavam praticamente encerradas. As inscrições de bandas nesse ano foram muito maiores. Estava tudo pronto para acontecer, mas nada foi consumado”.

O Sucesso do Araraquara Rock 2019

De fato, a edição passada do festival foi de tirar o fôlego. Bandas consagradas como CPM 22, Scalene e Golpe de Estado fizeram o chão tremer em Araraquara. Porém, grupos locais não ficaram atrás e presentearam o festival com shows memoráveis.

A Maddox fez um excelente show com seu rock autoral. José Luiz, baixista do conjunto falou da representatividade do festival para a cena rock da cidade: “O festival representa uma oportunidade de poder apresentar todo o esforço e arte das bandas, em uma estrutura similar a grandes festivais internacionais. Também gera uma exposição gigante devido à história que o festival carrega”.

José confessa que fazer rock autoral em Araraquara não é tarefa fácil: “Além de poucos espaços com estrutura boa para apresentação da música autoral, a falta de divulgação dificulta muito. Uma propagação maior de bons eventos seria uma saída para o incentivo”, sugere.

Um dos momentos mais memoráveis do show fora em um tributo aos anos 70. Na ocasião os músicos aproveitaram para falar sobre paz e amor. Também chamaram atenção para a tragédia ocorrida com a garota Yasmin da Silva Nery, 16 (Assassinada por um garoto de 17 anos): “Tinha muitos jovens lá, a comoção misturado ao sentimento da vibe setentista foi algo que impactou muito banda e público”, relata.

Pluggit é uma banda que começou fazendo vídeos de covers para youtube em 2013, tendo só dois integrantes. No entanto, foi em 2017, já com quatro integrantes, que deixou de ser uma banda cover de youtube, para se lançar no mercado como banda autoral.

O grupo tem uma característica mais voltada para o pop do que propriamente para o rock, como conta a vocalista Nathalia Schick: “Nós não nos consideramos a “nata” do Rock. Na verdade misturamos muito Rock, Pop, entre outros estilos. Percebemos que hoje as pessoas curtem muito mais ritmos como funk e sertanejo, talvez pela simplicidade das letras, batidas marcantes e refrões repetitivos. O rock nunca se conformou em fazer só isso e sempre trouxe em suas músicas questões mais fortes, riffs e solos pesados e um estilo feito, muitas vezes, pra um público específico.”
Nathalia prossegue: “Talvez o erro seja esse. O Rock poderia ser mais aberto, um ‘lugar para todos’. Acho que estamos evoluindo muito em relação a isso, um exemplo foi a nossa banda ter sido escolhida para tocar mesmo sendo mais Pop do que Rock, o que eu confesso que deixou a gente um pouco apreensivo no começo (achamos que íamos levar umas vaias por isso)”, confessa.

Perguntada sobre as possíveis alternativas para a realização do festival neste ano, Nathalia relata: “Acredito que realizar o evento esse ano seria loucura e desvantajoso. Mesmo sendo a céu aberto e tomando todos os cuidados, nada garante que o vírus não esteja lá. Uma sugestão para o evento acontecer ainda esse ano seria um evento online. Várias bandas, inclusive a nossa, estão fazendo lives para divulgar os trabalhos e ajudar entidades. Acredito que se o Araraquara Rock fizesse o mesmo seria incrível, conseguindo abrir para todo e qualquer o público de fora da cidade também acompanhar o evento”.

Após a apresentação no Araraquara Rock, a Pluggit subiu de patamar e ganhou um maior espaço na cena da cidade e região: “Deixamos de ser uma banda que só fazia covers para internet, mostrando mais nossa identidade e conseguindo mais oportunidades de shows pela cidade”, destaca.

Os Primórdios

A primeira edição do consagrado festival ocorreu em 2003 de maneira despretensiosa. Nem mesmo os criadores do evento poderiam imaginar a importância que o festival teria posteriormente na cena rock.
Itaici Brunetti foi o curador do evento de 2005 a 2010. Formado em jornalismo, ele escreve sobre música e entretenimento para os maiores portais e veículos de comunicação do país. Os cinco anos em que Itaici ficou à frente da curadoria foram fundamentais na história do festival: “O Araraquara Rock estava crescendo. Nesse período ele se tornou referência entre os festivais de médio porte. Uma coisa muito legal é que o festival carrega o nome de Araraquara: os artistas começaram a querer vir tocar na cidade”, destaca.

O jornalista relata que um dos grandes momentos do festival com ele a frente da curadoria foi em 2008: “Nesse ano nós trouxemos a Nação Zumbi. Era algo que fugia um pouco da cena rock. Uma coisa que eu achava legal dessa época era a diversidade de gêneros que havia no festival. Isso é algo que gostaria de ver novamente nas próximas edições”, realça.

Itaici relembra que em 2009 CJ Ramone participou do festival. Um marco histórico para Araraquara: “Foi um momento muito importante. Era uma atração internacional e um ex-integrante dos Ramones. Pra mim foi o ápice”.

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